Do artigo “Sensibilidade de fungos entomopatogênicos a agroquímicos usados no manejo da cana-de-açúcar“, de Aline Aparecida Alves Botelho y Antonio Carlos Monteiro, publicado na Bragantia.
A cana-de-açúcar tem especial significado econômico para o Brasil, que lidera a lista dos 80 países produtores com 25% da produção mundial.
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Com a expansão do sistema de colheita mecanizada (cana-crua) no Estado de São Paulo a cigarrinha-da-raíz Mahanarva fimbriolata (Stal) (Homoptera: Cercopidae) tornou-se a principal praga de solo da cultura da cana-de-açúcar. As ninfas atacam as raízes e são de difícil controle por inseticidas químicos. Devido à sua frequente ocorrência e ampla distribuição nos canaviais paulistas, essa praga pode reduzir a produção em até 40%. O controle biológico tem sido um método bastante explorado no controle da cigarrinha-da-raíz, principalmente com o fungo Metarhizium anisopliae, patógeno de ocorrência natural que vem sendo aplicado para o controle da praga.
A broca da cana-de-açúcar, Diatraea saccharalis (Fabricius) (Lepidoptera: Pyralidae) é uma das principais pragas desta cultura e causa prejuízos diretos como a abertura de galerias que vão ocasionar perda de peso na cana-de-açúcar e provocar a morte das gemas, causando falhas na germinação. Quando a intensidade de infestação é baixa, ou seja, até 5%, tem-se utilizado o fungo Beauveria bassiana para seu controle.
Os agroquímicos (inseticidas, herbicidas e maturadores) empregados no manejo da cana-de-açúcar podem afetar a ação de fungos entomopatogênicos usados no controle biológico de pragas da cultura, Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae. O emprego de microrganismos entomopatogênicos e de pesticidas em geral exige conhecimento da ação desses produtos sobre os agentes microbianos para determinar os efeitos desta ação e a compatibilidade com as estruturas vegetativas e reprodutivas dos microrganismos.
En este trabalho foram utilizados os inseticidas thiametoxan, aldicarbe e fipronil, os herbicidas imazapir, diuron, metribuzin, hexazinone+diuron, clomazone+ametrina, 2,4 diclorofenoxiacético e glifosato, e os maturadores etil-trinexapac, sulfometurom-metílico e glifosato também.
Os fungos foram cultivados em meio de cultura batata-dextrose-ágar contendo os agroquímicos. Avaliou-se o crescimento micelial, a produção e viabilidade dos conídios, e fez-se a avaliação da toxicidade dos agroquímicos.
O inseticida à base de thiametoxan foi considerado compatível, pois não afetou o crescimento micelial, a produção e a viabilidade dos conídios dos dois fungos.
O inseticida formulado com fipronil se mostrou parcialmente tóxico para os fungos, sendo considerado moderadamente compatível, enquanto o aldicarbe foi considerado tóxico.
Os herbicidas avaliados afetaram o crescimento micelial, a produção e a viabilidade dos conídios dos entomopatógenos e foram classificados como tóxicos, mas aqueles formulados com imazapir, glifosato e metribuzim foram considerados compatíveis.
Entre os agroquímicos usados como maturadores apenas o glifosato foi classificado como compatível.
Os agroquímicos usados no manejo da cana-de-açúcar, e que foram testados neste estudo, têm majoritariamente efeito tóxico sobre B. bassiana e M. anisopliae podendo comprometer sua ação como bioagentes de controle de pragas da cultura.